segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Ana Carolina expõe seu reflexo e desejos

Cantora mineira lotou o Chevrolet Hall, na noite do último sábado, num espetáculo em que sua música serviu também para encenar como ela se vê diante de seu próprio sucesso.

Dois quartos não é um simples show de Ana Carolina: é um comentário de Ana Carolina sobre ser Ana Carolina. Durante duas horas, a cantora encenou para um Chevrolet Hall entupido, sábado à noite, o desconforto que a popularidade das suas músicas lhe trouxe, o seu desdém por imitadoras como Isabella Taviani, que descaradamente aproveitam seus vácuos, e sua relação com a prisão das trilhas de novela da Globo.Tenso, auto-reflexivo e colorido, o espetáculo dialoga com a última turnê de Caetano Veloso, Cê, onde o cantor também teatralizou a seriedade da sua fama, “travestido” de astro de rock de 20 e poucos anos. Com direção de Monique Gardenberg, Dois quartos deixa claro que o desejo é um sentimento de alcance epistêmico, uma arma quente: o “eu desejo” implica uma hipótese sobre a causa. No seu caso, Ana Carolina parece não querer mais dizer que encontra nas lembranças um lugar seguro. Nos primeiros 10 minutos em cena, a cantora diz que está com febre, repete “pau”, “fenda mela”, “líquido”, artificialmente desconfortável com as suas próprias palavras, enquanto é cercada por um cenário pomposo, de cabaré antigo, com cortina brilhante onde é projetado o polêmico vídeo lésbico.Na verdade, o vídeo é uma brincadeira sádica que fala mais sobre jogos de poder que de prazer. Mas sexo é poder, verdade freudiana que a projeção deixa escapar. Ainda não há tesão na sua performance. Enquanto mulheres espancam outras mulheres na tela, a cantora escancara que agora ela está no comando da ação, dando uma surra no público que espera (apenas) suas famosas letras sobre amor platônico.
A produção colorida do início vira o banquinho e violão de antes para relembrar seu necessário passado. “Vou cantar algumas canções antigas”, avisa a cantora, esclarecendo que agora ela está no meio do caminho entre o que foi e onde pretende ir. O passado é um interlúdio, que faz a platéia urrar. Mas o que era declaração de amor, dor no peito, retorna embalado por cinismo. O hit Quem de nós dois reaparece em novo arranjo. Com a maior parte da letra cantada pela platéia, a impressão é que a música não serve mais ao vocal de Ana Carolina, que a canta menos gritado, menos arranhando a garganta.E por falar em garganta, o hit de estréia da cantora marca o momento de nova virada no show: Ana Carolina interpreta a canção se contorcendo no palco, jogando o cabelo, enviando sinais de fogo. Sua presença vai ficando menos tensa, enquanto o show chega ao seu final – ao momento em que ela escancara seu desejo. Para o bis, Dois quartos se transforma numa enorme discoteca e a música Eu comi a Madona volta em versão eletrônica, nos fazendo lembrar que sua Madona é com um “n” só, diferente do nome da cantora pop. Ana canta não (só) para a diva norte-americana, mas para qualquer Madona. A música é sua Maria, Maria. Se, ao interpretar essa canção no início da noite, a mineira estava dura, teatralmente desconfortável, ao final ela dança de um lado para o outro e faz um gesto nada discreto ao cantar que Madona quer ver seu “nervo rígido”. Ainda que imperfeito na sua pompa, Dois quartos é um dos espetáculos mais corajosos da MPB em muito tempo.

Fonte: Schneider Carpeggiani - Jornal do Comércio

2 comentários:

Ma disse...

Nossa, engana-se ee ao dizer que o público da Ana está lá só para ouvir as canções antigas. A gente quer a Ana toda, inteira, moderna ou antiga.

Anônimo disse...

Perfeito!