segunda-feira, 23 de março de 2009

Use o Auto-Tune, e vire uma estrela

Com um software de afinação de voz, qualquer um – qualquer um – pode ser cantor



Na atual MPB, oito entre dez artistas usam uma espécie de Viagra musical. Não se trata de uma epidemia de disfunção vocal. O fenômeno é resultado da disseminação de um software chamado Auto-tune, ou sua versão profissional, o Melodyne. Conhecidos como afinadores automáticos, esses programas elevam o nível de vocais medíocres, consertam notas, reparam desafinação, ajustam tempos. Tornam um desempenho irregular em música tecnicamente impecável. Ao contrário do Viagra, que não levanta defuntos, são capazes de transformar sussurros em músicas – e até grunhidos em canções. Esse Photoshop da voz foi inventado por Andy Hildebrand, um engenheiro que trabalhou por 18 anos na análise de dados sísmicos para a indústria do petróleo. Andy enviava ondas sonoras para o fundo da Terra e gravava seus reflexos para mapear potenciais poços de petróleo, interpretando as informações com uma fórmula matemática, a autocorrelação. Daí para prospectar campos musicais foi um passo: em 1996, fazendo cálculos parecidos, ele criou o Auto-Tune, um aplicativo que funcionava tão bem para captar desafinos quanto a técnica anterior para achar petróleo.

O aplicativo passou a ser usado por produtores para consertar deslizes e evitar gastos com a repetição de sessões de gravação. O funcionamento é simples (leia abaixo): depois de gravado, o áudio é jogado no programa. Na tela do computador aparece uma escala, o lugar em que a nota musical está e onde ela deveria estar. A afinação da voz pode ser ajustada numa escala de 400 a zero. No 400, fica natural, exatamente como falada ou cantada. No zero, parece a voz de um robô defeituoso: metalizada e engasgada. No zero, produtores mixaram a voz da cantora americana Cher em seu megahit dos anos 90, “Believe”. Perto do zero, o rapper Kanye West usou o Auto-Tune no ano passado, em seu álbum 808’s & Heartbreak. Aprendeu em aulinhas com o colega rapper T-Pain, pioneiro na autotunagem no hip-hop. São efeitos similares ao que o jazzista Herbie Hancock explorou com o Vocoder, nos anos 70, ou que Stevie Wonder e Peter Frampton tiraram do Talk Box, instrumentos parentes que alteram eletricamente a voz ligados a um teclado.

Em uníssono, artistas e produtores elogiam os méritos artísticos no uso do Auto-Tune, como efeito e linguagem musical. A dissonância de opiniões começa quando o assunto são as plásticas sonoras operadas com o programa nas mesas de som. Produtores e engenheiros cada vez mais puxam, repuxam e esticam as vozes dos artistas para colocá-las no tom e na afinação perfeitos. A questão é: o que seria perfeito? “O Auto-Tune está criando um referencial vocal equivocado, porque não é humano, é baseado em paralelas e abscissas”, diz o produtor e dono da gravadora Trama, João Marcello Bôscoli. “No Auto-Tune, a voz de Billie Holliday ou a de Nat King Cole apareceriam desafinadas.” E são desafinadas, às vezes. Como qualquer ser humano, cantores não têm vozes perfeitas: sempre há um semitom por atingir, uma nota não alcançada. Idiossincrasias artísticas essenciais às grandes canções. “O problema é a valorização excessiva da técnica em detrimento da emoção”, afirma o ex-diretor artístico da gravadora PolyGram (atual Universal) Armando Pittigliani, para quem a evolução tecnológica minou a autenticidade do cantor. “Fica tudo tão certinho e afinado que não parece humano.” Opinião compartilhada por Marcos Mazolla, que produziu de Gal Costa a Zeca Baleiro. “Os discos de hoje são frios e sem vida porque são mecânicos e sem emoção. Antigamente você tinha verdadeiros cantores, sem processos de edição.” A cantora Zizi Possi diz ainda pertencer a esse tempo desprovido de aditivos. “Quando gravo em estúdio, não uso Auto-Tune, uso gogó-tunes”, diz.

Implicar com o Auto-Tune não é picuinha de audiófilos afeitos a procedimentos antiquados. Artistas jovens reclamam do excesso de tecnicismo. “Já preteri takes considerados perfeitos tecnicamente que ficaram aquém no lance do sentimento”, diz Maria Rita, uma das cantoras da nova geração que se negam a usar afinadores. “É fundamental o respiro, o coração batendo, a tensão, o sorriso, o engasgo... Mostra verdade, mostra entrega.”

Apesar do coro de descontentes, “tunar” artistas no estúdio tornou-se prática quase inevitável. A maioria das músicas contemporâneas é finalizada no Pro Tools, um programa que permite a engenheiros e músicos visualizar o áudio na tela do computador e mapear as canções numa espécie de tabela do Excel. É possível montar uma música como quem brinca com tesoura e cola – método com o qual se escreveu boa parte da história recente do pop. O Auto-Tune e o Melodyne são aplicativos do Pro Tools, incrementos para tornar o processo de edição perfeito. Para muitos diretores de gravadoras, uma melhora indispensável. “Se a gente pode entregar um áudio de melhor qualidade para o consumidor, por que não usar a tecnologia?”, diz Marcelo Toller, diretor-artístico da Som Livre.“Esses equipamentos vieram para melhorar o áudio, corrigir problemas e fazer ajustes, pequenos ou grandes, em takes que têm emoção, mas em outros tempos ou seriam jogados fora ou eternizados com esses defeitos.”

Na qualidade inerente do Auto-Tune reside, justamente, seu perigo: a superdosagem. É como uma aspirina musical para resolver pequenas dores de cabeça depois da gravação. “É um remédio que todo mundo toma”, afirma o produtor Rick Bonadio, que já pôs a mão em gravações de inúmeros roqueiros brasileiros, de Titãs a NX Zero. “O problema são os efeitos colaterais quando você exagera.” Para limpar o organismo musical de excessos de tunagem, Bonadio avia uma receita: “Enquanto não ficar incrível tem de refazer. Depois que a versão gravada arrepiar, é válido usar o Auto-Tune para dar pequenos retoques”.

Boa parte dos artistas nacionais compartilha da opinião “moderada” de Bonadio. “Já usei o Auto-Tune para fazer ajustes finos, reparos para não perder a intensidade de uma gravação que ficou muito boa”, afirma Mônica Salmaso. Como todo instrumento tecnológico, é difícil ter sabedoria para não sair apertando todos os botões e usar os milhares de recursos. Muitos produtores, engenheiros e músicos estão viciados em Auto-Tune. “Certa vez precisei brecar um técnico que editou a minha voz automaticamente, colocando-a no mesmo tempo que a do meu parceiro na canção”, diz Mônica.

Esse grau de aperfeiçoamento transformou os afinadores de voz em parte essencial do processo de gravação. Como tudo que facilita a vida, o programa incentivou certa preguiça artística. “Não devia virar praxe, pois tem gente que grava e vai embora, deixa na mão do produtor ou do técnico”, afirma a cantora Fernanda Porto. É como se a existência do recurso desobrigasse cantores de se esforçar para melhorar uma gravação. “Hoje, 90% dos artistas entram no estúdio pensando no Auto-Tune, e não em fazer um take de voz maravilhoso”, diz o engenheiro de som Luiz Paulo Serafim, que mixou de Roberto Carlos a Maria Bethânia. “O cara canta pensando que alguém vai consertar depois.”

A metáfora futebolística de Bôscoli, da Trama, reverbera melhor: “É como se uma empresa inventasse uma chuteira que ajusta automaticamente o chute e o passe. Qualquer chute entra no ângulo, qualquer toque sai perfeito. Que jogador iria querer treinar?”.

A potência desses Photoshops sonoros levou um renomado produtor a afirmar: “Com esse programa, até cachorro canta”. ÉPOCA fez o teste. Levamos o cão Garrincha, gentilmente cedido pela escola de adestramento Cães Maravilhosos, a um estúdio em São Paulo. Seus uivos foram gravados, mixados no Auto-Tune e transformados em canção. Ficaram ótimos. Você não precisa acreditar em minha palavra, pode conferir a musicalidade do cãozinho tunado no site de ÉPOCA. Também é possível ouvir trechos de canções em que o programa foi aplicado. No uso criativo, sua presença é evidente e interessante. Como Botox de gravações, é quase imperceptível. “O uso é tão milimétrico que nem com muito esforço o ouvido não profissional percebe”, diz Rick Bonadio. Então como saber se alguém canta mesmo? “Só ao vivo dá para analisar. No estúdio se fazem milagres, no palco não dá para enganar”, diz Marco Mazzola, ecoando a opinião de Maria Rita. “O público não é burro: ele pode pegar na mão um disco impecável e no show ver que o artista não vinga.”

Uma vez perguntaram a Andy Hildebrand se sua invenção era nociva. Ele respondeu: “Bem, minha mulher usa maquiagem. Isso é nocivo?”. Para esconder rugas, não. Mas, mesmo com a notória indulgência dos tímpanos populares à ética e à estética sonora de certos artistas, é preciso questionar os limites do uso desses afinadores como procedimento padrão dos estúdios para “dar um tapa” nas vozes. Se qualquer um pode cantar, o que faz do artista um artista?



Fonte: Revista Época 23/03/2009

5 comentários:

Janaína Oliveira disse...

Meu amigo, eita matéria boa!.Para nós leigo, é muito complicado saber destas,vamos dizer (engenhocas),mas ao mesmo tempo fico muito feliz em saber que temos artistas de grande valor, pois não precisam de tal recurso, para mostrar que é um artista completo, quero dizer que tem gogó, canta por dádiva de Deus, que deu o dom a cada um,e fico + feliz ainda em saber que a Cantora Ana Carolina não usa de tal recurso,pois ela deixa transparecer para seu público que sabe muito bem de sua capacidade. Parabens não só a Ana Carolina + a todos que estão na lista dos que não usam de o tal artifício, vamos dizer mecânico.

Abraços

Janaína Oliveira disse...

Usando dos recurso em pauta,fica muito fácil, você receber trofeus, premios e muito mais coisas, pois acredito que para os críticos que sempre estão avaliando o seu trabalho ,você digo, (o artista) vai sempre ter um trabalho sem nenhum defeito, ou melhor não quero dizer defeito, mas sim de agudos e graves que a natureza mandou junto com a sua voz ao mundo,creio que estes artistas que usam o Auto-Tune,não são tão capacitados como mostram ser, pois tem que ter algo que o ajudem a ser um artista perfeito, e quero dizer que não existe nada PERFEITO, então a perfeição nunca vai chegar pra ninguem, seja com mecânismo de última geração ou não.

Luana Lima disse...

Fiqui espantada pela Maria Bethânia e Norah Jones.. mas pela Ana Carolina, eu já esperava! xD O Liminha disse em um DVD dela uma vez que o trabalho da Ana não precisa ser uma coisa mascarada.
e nos shows temos a prova disso! :)

Mariane disse...

Só vi agora este texto, e adorei! Eu já sabia, mas adorei ver o nome da minha cantora querida lá em cima, nos que não usam. Maria Rita! Cantora que não precisa de auto-tune e tampouco playback. Maravilha! Aí que você vê o grande valor de um artista. Outro que fiquei feliz em ver foi o Pedro Mariano. Muito bom, mesmo! ;-)

Monsek Hevlan disse...

Até parece que qualquer um pode se tornar um cantor cantando afinado. Ser cantor está muito além do que simples afinação. Requer, dentre milhões de coisas, boa voz, interpretação, técnica para pular de uma nota para outra, vibrato, respiração na hora certa. Se faltar qualquer coisa dessas, pode acreditar, ninguém canta, mesmo sendo afinado.

Qualquer cantor profissional pode viver muito bem sem afinação eletrônica. O único porém é que ele terá de cantar novamente onde ele semitonou. Não adianta: qualquer cantor na face dessa Terra desafina alguma hora. O autotune apenas corrige esses deslizes e poupa tempo, só isso. Passou disso, vira overdose.

Essa matéria é completamente equivocada, afinação não é algo tão simples, e música não se pode ser medida por afinação total. Até um intrumento, como um piano, em sua afinação 100% soa irritante, só para citar um exemplo.

Em outras palavras: não se fabrica cantores.